quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Estações...


                              para Laísla

Num dia qualquer, vestida de outono
O olhar triste, a feição melancólica
Faz-se distante, temerosa e arredia...

Noutro dia, solitária em seu trono
Olhos ao longe, paisagem bucólica
Entregue à monótona tarde de inverno

E num sorriso meigo e apaixonante,
O ardor da paixão, a dor lancinante
Faz-se sol de verão, acolhedor e terno

Traz-me cores, perfumes, me acalma
Orna com tuas flores a minha alma
Na doce primavera da sinestesia...
                                         (Rafael de Oliveira)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Exaltação à Loucura

                                       A Erasmo de Rotterdam (1466-1536)

Ainda que não a compreendam em tua grandeza
Ainda que se autoproclames indiferente à filosofia
Por tua infinita modéstia e arrebatadora nobreza
Louvar-te-ei! Pois quão grande é a tua sabedoria

Afastas de ti toda a racionalidade e sua reflexão.
És, em verdade, fruto do incessante multirreflexo
Por mais que amaldiçoes a mim por esta conexão
Põe-se a rir desvairada. Sabes que tudo é reflexo.

 E nos acolhedores braços desta mãe zelosa
 O verdadeiramente sábio entrega-se e goza
 Do eterno e luminoso abraço da insanidade...

Aos normais, sob a manta púdica da hipocrisia
- Os "verdadeiros loucos", por tamanha heresia -
A todos aqueles que a julgam como bestialidade

Aos poucos sábios, embriagados por suas loucuras
Aos loucos varridos, tecendo cores em valas escuras
Enfim, a todos os homens: - Eis a vossa san(t)idade!
                                                                  (Rafael de Oliveira)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Olhos da Loucura

                             Olhos de menina

O frio na espinha, a mente vagueia
Sinto o prenúncio de um novo curto
A verdade. O inconsciente. O surto
Em face do real, a ilusão que norteia

Acorrentado a um estranho cativeiro
Escuro e denso - Mentira sem nexo -
- Todas as verdades - infinito reflexo
E a vida, apenas capricho do Coveiro" 

Os olhos da loucura me pesam os ombros
Já Não há luz. Apenas cinzas, escombros
Já não há bem ou mal... Diabo ou Deus...

Salva-me desta insana lucidez - Doutrina
Transporta-me do eterno poço - Neblina
Aos sóis suspensos... Aos olhos teus...
                                              (Rafael de Oliveira)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Pele de Cobra

             Aos nascidos da pobreza nua
                Aos papelões estirados na rua
                    Aos pés descalços no asfalto.
 

Escamotada pele de serpente
Alegoria em desfile de castas
- Corja manipuladora de gente
Palco imundo de neuropastas -

Cores, raças, crenças, gêneros
Ao diferente, dita dura palmatória
Repetidas vozes, valores efêmeros
Comercializaram Deus e sua glória

Almejo a revolução dos esquecidos
Dos corpos marginalizados e banidos
Pregando ódio ao sim, amor ao não

Sonho com fardas ensanguentadas
Casas invadidas, gritos nas escadas
Corpos de policiais estirados ao chão
                                         (Rafael de Oliveira)