sábado, 4 de setembro de 2010

Traição Incestuosa

Aperto demoradamente o teu pescoço
A respiração arqueja tal qual a de um asmático
O coração trepida e para, estático.
Vejo a vida partir no seu mais belo esboço.

Inanimada a contemplar o céu, sombria.
A libido ainda evidenciada em teus seios
Sinto tornar-se cada vez mais fria
Vejo-me tomado de prazeres e anseios.

A minha lança a rasgar teu corpo virgem
Invadem-me desejos, prazeres... Vertigem
E os teus olhos viram de gozo, safada.

Acariciando a tua carne com meu punhal
O rasgar torna-se selvagem, literal.
Submissa, sem ousar um verbo, calada.

O sangue que fluíra em tuas veias outrora
Agora me beija a boca e a libido aflora.
O mais nobre vinho tinto, a mente embriagada.

Teus olhos, mórbidos, parecem me acompanhar.
Enquanto eu, libertino, espalho teu sangue a me banhar.
A sua boca, levemente aberta, grita horrorizada.

Penetro uma última vez teu corpo morto
Sinto-me leve, suspenso no ar, absorto.
O amor da minha vida, pela morte eternizada.

E assim como fora no inicio, a profana criação de Deus.
Propagando-se desde Adão e Eva, a lascívia entre os filhos teus.
Sinto-me escravo da orgia incestuosa pelo Pai preconizada

Filha, fruto da minha carne, doce amor.
Tão jovem, ainda moça, traz na pele o mais puro frescor.
Voluptuosa, sedutora... Vai em paz, está perdoada.

Cubro-a silenciosamente com vestes de cetim
E a despejo, cuidadosamente, em uma cova no meu jardim.
- Vai, e leva contigo a incestuosa traição enraizada.
                                                                    (Rafael de Oliveira)

4 comentários:

  1. A cada verso uma pulsação, e para finalizar...O gozo!

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  2. gosto muito de poesias que me fazem sentir, qualquer coisa que seja. pois essa até a respiração me roubou...

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