sábado, 4 de setembro de 2010

Esquizofrênico

Certo dia resguardado em minha alcova
Tive, destarte, um estranho devaneio
Atentei que tudo que almejo e anseio
Seria soterrado comigo em minha cova.

Naquele mesmo instante, ininterruptamente
Criei revolto, meu próprio personagem
Com quem partilharia dentro da minha mente
Momentos desprovidos de qualquer margem

Criei-o com todo zelo e carinho
Dei-lhe um nome e uma família
Mesmo sem lhe guiar um caminho
Permaneci de perto em vigília

Vivemos anos de extrema cumplicidade
Convivi a um passo da esquizofrenia
Éramos dois, mas um, eu sabia
Apenas o projetava quando tinha vontade

Certa noite, por um descuido, desatento
Não percebi que tramara contra mim, ingrato
E enquanto estava envolto em outro pensamento
Ele fugira e tornara-se um ser de fato

Ao acordar, senti assustado a sua ausência
Apavorado, chamei por ele introspectivo
Fui buscá-lo dentro de mim, em sua essência
Não havia mais volta, ele estava vivo...
                                            (Rafael de Oliveira)

2 comentários:

  1. Outrora escutei,seguro,o que o espelho me
    dizia... Aguardei,pensei...Era tarde de mais...Havia fugido!

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  2. "_Será que existe algo além dos solilóquios?

    _Talvez algum olho menos piogênico, mas de igual modo laivo...

    _ Quem será o portador do medo que guarda do outro: o Ser ou o Devir?

    _Queria estar alheio à tudo isto...queria não ser!"

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