segunda-feira, 13 de setembro de 2010

À Poesia Marginal

Diante deste empoeirado recinto
Que tão gentilmente me acomoda
Castigado por elucidar o que sinto
Por não caminhar segundo a moda

- Vistosa engrenagem capitalista
A ditar vis costumes à sociedade -
Dispersos transeuntes sem ter em vista
A causa do sofrimento que nos invade

Por me filiar a arte, hoje cativo.
Condenado simplesmente a estar vivo
Trancafiado num porão para que pereça

E quanto a esta multidão que me assiste
Pelo horror e iniqüidade em que consiste
Penso, quem sabe, que ela mereça!
                                           (Rafael de Oliveira)

Roleta Russa

Sois, dentre todos, o mais eloqüente.
- Daqueles que me perfazem como ser
Veste-me, a cada trago, como vivente
Para no derradeiro dia, ver-me morrer.

Sinto em meus lábios teu doce ardor
Enxergo em tuas chamas a sinceridade
E por mais que me preencha o teu calor
Não me permitirás viver a flor da idade

Somos dois e um – pulsando a cada cigarro
Percebo, sem alarme, neste ou noutro pigarro.
“O que me faz viver, já me consome a existência.”

E se Deus me presenteou com a estrada
Se consigo hoje manter-me na caminhada
Agradeço com fervor. Não a Ele, mas à ciência.
                                                         (Rafael de Oliveira)

sábado, 4 de setembro de 2010

Psicologia de um Voyeur

Pensamento de Vitor Dias,
Por mim fraseado.

Eis que sou o mais triste dos seres.
Diante da mais bela prostituta
E sua ninfa sedenta de prazeres
Recolho-me a olhar, nobre conduta.
E a proclamar libidinosos dizeres.

Dentre os eunucos, o mais dissoluto.
Provido de uma lança a muito condenada
A caminhar, lânguido, em meu funesto luto.
Desencanto da minha vida, nesta terra fadada.

Equilibrista errante em minha tênue muralha
Na qual, leviano, em frente ao abismo.
Carrego meu fardo, infame canalha.
De viver entre a lascívia e o voyeurismo.
                                                (Rafael de Oliveira)

Poeta do Corpo

Contorno lentamente o teu tracejado.
Lendo os teus versos - insânia erótica -
Soneto perfeitamente metrificado,
Refletido sutilmente à sua alvura gótica.

Teus longos cabelos deleitados docemente
Contrastando com a sua alva tez,
São como rimas, interpostas perfeitamente
Atiçando a minha varonil avidez

Trago na ponta da língua a tua poesia
De onde emanam os mais doces perfumes
Tomado pela perversão em demasia
Abstenho-me dos católicos “bons costumes”.

As tuas páginas abrem-se em gozo
- Penetro lentamente à leitura -
Banhado ao concerto mais virtuoso
Toco suavemente a tua partitura

Em meio à leitura, tenros espasmos
E as páginas antes rijas, desfalecem
Olhos revirados, prévia de orgasmos
Momento em que nada e todas as coisas acontecem...
                                                               (Rafael de Oliveira)

Personificação do Hedonismo

Ainda que os teus olhos não reflitam a farsa
Como se não fosse suficiente à fama esparsa
Revela-se pelos lábios tintos e o joelho calejado
Que com quantos pudera deitar, já havia se deitado.

És rainha do desejo, suntuosa princesa do orgasmo.
Fizeste da cama o teu lar, da taberna teu castelo.
És da própria vida – O chinelo, a gravata e o martelo.
De orgasmo em orgasmo. De espasmo em espasmo...
[...]

Permitiu que eu a penetrasse por quase toda noite
Quando não lhe mantinha ocupada, a boca, clamava pelo açoite.
Tão lasciva era a cortesã, que já se conformara com o abismo.

- Escolhestes os meus braços, impreterivelmente.
Para que enfim morresse assim tão de repente
Verdadeiro amor da minha vida, mártir do hedonismo.
                                                                 (Rafael de Oliveira)

Traição Incestuosa

Aperto demoradamente o teu pescoço
A respiração arqueja tal qual a de um asmático
O coração trepida e para, estático.
Vejo a vida partir no seu mais belo esboço.

Inanimada a contemplar o céu, sombria.
A libido ainda evidenciada em teus seios
Sinto tornar-se cada vez mais fria
Vejo-me tomado de prazeres e anseios.

A minha lança a rasgar teu corpo virgem
Invadem-me desejos, prazeres... Vertigem
E os teus olhos viram de gozo, safada.

Acariciando a tua carne com meu punhal
O rasgar torna-se selvagem, literal.
Submissa, sem ousar um verbo, calada.

O sangue que fluíra em tuas veias outrora
Agora me beija a boca e a libido aflora.
O mais nobre vinho tinto, a mente embriagada.

Teus olhos, mórbidos, parecem me acompanhar.
Enquanto eu, libertino, espalho teu sangue a me banhar.
A sua boca, levemente aberta, grita horrorizada.

Penetro uma última vez teu corpo morto
Sinto-me leve, suspenso no ar, absorto.
O amor da minha vida, pela morte eternizada.

E assim como fora no inicio, a profana criação de Deus.
Propagando-se desde Adão e Eva, a lascívia entre os filhos teus.
Sinto-me escravo da orgia incestuosa pelo Pai preconizada

Filha, fruto da minha carne, doce amor.
Tão jovem, ainda moça, traz na pele o mais puro frescor.
Voluptuosa, sedutora... Vai em paz, está perdoada.

Cubro-a silenciosamente com vestes de cetim
E a despejo, cuidadosamente, em uma cova no meu jardim.
- Vai, e leva contigo a incestuosa traição enraizada.
                                                                    (Rafael de Oliveira)

Anencéfalo

Falido projeto embrionário
Nasceste poente derradeiro
Saíste das mãos do vigário
Para a realidade fria do coveiro

Esperado nove meses a fio
Em vez de um parto, aborto
No fundo de teus olhos, vazio
Vieste ao mundo imediato morto

Nasceste com o único propósito
De interromper sua genealogia
E ensinar aos seus o sofrimento

Fruto de Deus, em despropósito
Ante a vida, nasce a anencefalia
- O choro materno, o desalento –
                                        (Rafael de Oliveira)

Face da Loucura

Trago no peito a convicta certeza
Simples e Irrevogavelmente incerta
De que a loucura representa na certa
A única e imaculada face da beleza.
                                       (Rafael de Oliveira)

A morte do Poeta

Profunda escuridão que me acompanha
Agora transbordante em meus versos
Marca o fim da minha vida, triste campanha
De poucos passos, sinuosos e dispersos

Familiares e amigos, em um ritual de culto à morte
- Olhos vazios a contemplar meu ultimo terno -
Minha mãe, ajoelhada, a clamar pela minha sorte
Para que Deus não me permita arder no inferno...
                                                          (Rafael de Oliveira)

Súplica

Por onde anda aquele que outrora era eu?
Aquele cuja vida fora concebida por mim
Será que ainda ninguém percebeu
Que separados estamos fadados ao fim?!

Por que persistem em escondê-lo?
Por que o ocultam em meus pensamentos?
Cansei de existir, desejo revivê-lo
Devolvam-me a vida e meus sentimentos...

Há muito não o vejo em meu reflexo
Será que me fora roubado em definitivo?
Já não suporto este frenesi complexo
De ter sempre a sensação de não estar vivo

Imploro a devolução da minha significância
Daquilo que fui e almejo que persista
O que me fora tomado por ignorância
Para que eu finalmente viva e não mais exista.
                                                   (Rafael de Oliveira)

Poeta Reticente...

Não tenho a pretensão, nem deveria
De fazer distinção entre o bem e o mal
Não julgo os católicos, em sua heresia
Por jejuar posteriormente ao carnaval

Sem desacreditar a religião frente às ciências
Enxergo no ceticismo, a pura fé sobrenatural
Visto que sou eu, o poeta das reticências
Não me compete a nada dar um ponto final...
                                                    (Rafael de Oliveira)

Poema XXII

Debruçado diante deste papiro
Desprovido de inspiração alguma
Relutante entre a corda e o tiro
Escrevo o que me vêm, em suma

Introspectivamente, o escuro.
Qual de nós deve permanecer?!
Encontro-me em cima do muro
E minhas mãos negam-se a escrever

Talvez eu seja um suicida
Ou um simples esquizofrênico.
Por não valorizar em nada a vida
Certamente me julgarás oligofrênico

Engrenagem de uma triste civilização
Onde não é permitido se sobressair
Somos números de uma infinita equação
De simples somar, multiplicar e subtrair

Reduzidos a mais exata das matérias
Vivemos uma realidade matemática
Onde até o pulsar de nossas artérias
Não passa de movimentação estática...

Acreditamos na inalcançável felicidade
Enfeitiçados pelo seu conceito abstrato.
E ao constatá-la como fruto da insanidade
É que nos entregamos à depressão de fato.
                                                 (Rafael de Oliveira)

Espelho

Diante de um vidro espelhado
Encaro minha assimétrica figura
Quadro grosseiro, mal emoldurado
Fruto de Deus em sua desventura

Aquele rosto tão esquelético
Que outrora me pertencia
Fitava os meus olhos, cético
E cinicamente sorria

Caí prostrado em pranto.
O espelho teimou em refletir
Para meu maior espanto
Que eu não parava de sorrir

Senti naquele breve instante
Que me fora tomada a sanidade
Era mais um demônio de Dante
Desprovido de minha própria identidade.

Tentei quebrar o espelho, desesperado
Provoquei destarte, meu próprio fim
Pois ao ver meu outro eu despedaçado
Fiquei partido em milhares de mim...
                                          (Rafael de Oliveira)

Desabafo de um Poeta

Jamais espere de mim mediocridade
Não sou homem, sou poeta
E no lixo não habita a poesia

Não deve esperar de mim felicidade
Sou ser que pensa, interpreta
E não conluio com tamanha utopia

De forma alguma espere de mim, sobretudo
Que me filie à Literatura comercial
Pois me causa mais ojeriza do que tudo
Descer à massa e vender carnaval.
                                           (Rafael de Oliveira)

Retrato Social

Corja de oligofrênicos
Disfarçados inutilmente
Envoltos em véus helênicos
Almejando crer veemente

Obsoletos bibelôs
De um sistema fadado
Prostitutas e gigolôs
- Indivíduos e Estado –

Acorrentados ao Tradicionalismo
Nas senzalas da revolução
Bradam o idealismo
Sujeitados a escravidão.
                          (Rafael de Oliveira)

Guerra Santa

Atordoantes Rajadas iluminadas
Ensurdecedora sinfonia psicodélica
Famílias e vidas desmembradas
Fruto da santa insanidade bélica

Vidas precocemente ceifadas
Pela maldição do Pai ausente
Em prol das vidas desventuradas
Por onde andará o Onipresente?!

Ironicamente nomeado Terra santa
O conflituoso território de Israel.
- Enaltecido, o anticristo canta
No ventre amaldiçoado do Gabriel...
                                         (Rafael de Oliveira)

Pseudo-Realidade

Latente morte
Lúdica vida.
Imagino sorte
Realidade sofrida.

Triste sopro
Astro magistral
Sozinho, sofro
Psicopatia social

Procuro verdade
Plantando mentira
Canto saudade
Colhendo ira

Habito escuridão
Almejando claridade
Interpreto são
Revestindo insanidade.
                          (Rafael de Oliveira)

Retorno à Depressão

Retorno aos teus cuidados, doce amada
Após exílio venho me redimir.
Perdoa esta pobre alma desgraçada
Que num ato de ousadia pensou sorrir

Amo-a profunda e silenciosamente
Em segredo trago-a em meu peito
Infestado pela agonia de quem mente
Adoro-a, cultuo-a e a respeito

Subjugado, curvo-me diante de ti.
Se questionado sobre o meu amor
Eu submisso, prontamente nego

Revestido do sarcasmo de quem sorri
Disfarçarei divinamente meu clamor
Falseando ver, momentaneamente cego.
                                                (Rafael de Oliveira)

Cativeiro

Passo semanas a me procurar
Em cada esquina do meu consciente
Espero poder um dia me encontrar.
- Sinto-me solitário, trêmulo, doente -

Os morcegos augustinianos me rodeiam
Já não consigo mais sequer dormir
Os lençóis, brancos, me chicoteiam
E meu travesseiro tenta me engolir

Um pobre homem endemoninhado
Fruto da mais católica criação
Sou mais um cordeiro devastado
Trancafiado em um quarto de porão

Outrora livre, jovem e imperativo
Subsisto mórbido em um hospício
Agora velho, cansado e cativo
Acusado de loucura ou qualquer vício

Já não recordo dos meus entes queridos
Minha mãe há muito não me escreve.
Penso nos anos a fio aqui perdidos.
E a Deus, caso exista, imploro que me leve...
                                                       (Rafael de Oliveira)

Poema XIII

Envolto em trevas, em meu nevoeiro
No medievo da minha curta história
Desprovido de armadura, vil guerreiro
Almejando em segredo dias de glória

Embora desacreditado, sonhava
-Porco insolente, cão audacioso-
Diante da minha miséria ousava
Crer que teria do amor o gozo.

Entregue a depressão, meu doce vício
A beira do mais alto precipício.
Estava a um passo da eternidade...

E antes que eu caminhasse para a morte
Pôs-me em teus braços, mudou minha sorte.
Trouxe-me ternura e felicidade.
                                    (Rafael de Oliveira)

Esquizofrênico

Certo dia resguardado em minha alcova
Tive, destarte, um estranho devaneio
Atentei que tudo que almejo e anseio
Seria soterrado comigo em minha cova.

Naquele mesmo instante, ininterruptamente
Criei revolto, meu próprio personagem
Com quem partilharia dentro da minha mente
Momentos desprovidos de qualquer margem

Criei-o com todo zelo e carinho
Dei-lhe um nome e uma família
Mesmo sem lhe guiar um caminho
Permaneci de perto em vigília

Vivemos anos de extrema cumplicidade
Convivi a um passo da esquizofrenia
Éramos dois, mas um, eu sabia
Apenas o projetava quando tinha vontade

Certa noite, por um descuido, desatento
Não percebi que tramara contra mim, ingrato
E enquanto estava envolto em outro pensamento
Ele fugira e tornara-se um ser de fato

Ao acordar, senti assustado a sua ausência
Apavorado, chamei por ele introspectivo
Fui buscá-lo dentro de mim, em sua essência
Não havia mais volta, ele estava vivo...
                                            (Rafael de Oliveira)

Amantes

Moléculas arquejantes,
Organismos putrefatos.
Amores inconstantes
Paradigmas de ratos...

Volúpias incessantes.
Linhas torneadas,
Pulsos latejantes
Veias irrigadas.

Uma carcaça.
Duas vidas...
Desfeita a farsa
Restam feridas.
               (Rafael de Oliveira)

Ao Glorioso Deus Demente

Sentado num canto escuro, no lixo
Revestido de toda ignorância e humildade
Não era homem nem rato, era bicho
Jamais questionara a Santa Trindade

Ao Divino sempre dedicado, fiel temente
Às margens da sociedade, miserável escória
De joelhos, prostrado, clama ao Deus demente
Levanta as mãos e exalta ao Salvador a glória

Deus, Todo Poderoso, luz e misericórdia
Indiferente, fecha os olhos perante os seus
Amante da guerra, semeador da discórdia
Deixa-os em meio aos escarnecedores e ateus.
                                                             (Rafael de Oliveira)

Eu

Escravo das minhas abstrações,
Sujeito ao senhor do idealismo.
Chafurdo na lama das depressões,
Entre o real e o surrealismo.

Talvez o ardente calor da vida
Ao que por algumas razões me nego,
Representem a ascendente ferida.
-Maculado, inanimado e cego-

Desejo uma cova rasa e fria,
Distintos companheiros sepulcrais.
Para que na permanência sombria,

De viver, não sinta falta jamais.
Tranquilamente hei de perecer.
Em reminiscência, nunca morrer.
                                      (Rafael de Oliveira)

Poema VII

Desde os pagãos da deusa Isis
E a sua crença Dogmática
Aos pesquisadores da Physis
E a sua filosofia Pragmática

Todo poderoso, Onipotente.
Em todas as mentes, Onipresente.
Profunda sabedoria, Onisciente.
Em toda sua glória, Indiferente.

Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
Infinito, desde a gênese ao pó.
Egocêntrico, Pai perverso.

De todo a magnitude do seu glorioso ser
Deixa-nos apenas a incerteza do não-ser
E a dúvida constante do universo.
                                       (Rafael de Oliveira)

...InsanaMente...

Para cada casa há uma loucura
Para cada esquina existe um louco
A cada passo dado a mente pura
Esvai-se insanamente pouco a pouco

Sinto saudades daquele tempo
Daquele tempo que não volta mais.
Sinto saudades de certo momento
Que não vivi nem viverei jamais

Ainda voavam abacaxis
Ninguém se queixava da sua tez.
Tartarugas, num momento feliz,

Tranqüilamente jogavam xadrez.
Pobre Deus, alheio a tudo, infeliz,
De cego a surdo e mudo se refez.
                                        (Rafael de Oliveira)

Redenção

A escuridão dentro de mim aponta,
Envergonha a minha dignidade.
Da minha alma toma conta,
E pouco a pouco me converte a maldade.

Já não sou digno da benção de Deus.
O mal há muito me seduz.
Vou carregar para sempre essa cruz
Que amaldiçoa a mim e aos meus.

Oh! Deus, eu suplico...
Apedreja-me em plena praça
Despeja em mim toda a tua ira,
Ausenta-me da tua graça.
Toma à mão a tua lança e atira
Antes que eu mesmo o faça.
                                 (Rafael de Oliveira)